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“A RAINHA ESTÁ MORTA”

By 2 semanas atrás No Comments

Continuando a série de análises dos álbuns do The Smiths, MORRISSEY: O DESCOMPASSO ENCARNADO, CARNE É ASSASSINATO, analisarei hoje o terceiro álbum de estúdio intitulado The Queen Is Dead que foi lançado no ano de 1986.

THE QUEEN IS DEAD – 1986 (Rough Trade)

The Smiths

Menos visceral do que o seu antecessor, Meat Is Murder (1985), e muito mais dançante que o trabalho fúnebre de estréia, The Smiths (1984), o terceiro álbum do grupo britânico é muito mais maduro tanto melodicamente quando liricamente.

Precedido pelo single Bigmouth Strikes Again que fora lançado um mês antes, maio, do lançamento do álbum The Queen Is Dead no mês de junho de 1986, esse parece concentrar tudo o que o grupo havia testado desde o debut homônimo em 1984: um ambiente melancólico e sombrio à meia luz que cresce de acordo com as frustrações e confissões amargosas do eu lírico e músicas dançantes narrando angústias relacionadas a relações amorosas fracassadas.

Se por um lado temos aqui os vocais brilhantes, muito mais melodiosos e imbuídos de letras sombrias, do Morrissey e a sonoridade dançante construída por Johnny Marr que serviriam para dar vida a clássicos como There Is A Light That Never Goes Out e I Know It’s Over, por outro, temos também uma sincronia perfeita de guitarras pop e o brando de temas dos mais diversos.

O lançamento desse álbum foi marcado por vários conflitos com o dono da gravadora Rough Trade, Geoff Travis, que atrasou em alguns meses o lançamento do disco, o álbum fora gravado no inverno de 85′,  e que acabou sendo produzido pela própria banda: Johnny Marr e Morissey.

The Queen Is Dead representa o ápice criativo e musical do The Smiths, mesmo que na época passando por inúmeras dificuldades como a falta de um agente fixo e o vício em heroína do baixista Andy Rourke, além de uma complicada renegociação do contrato com a gravadora.

O vocalista chegou até a afirmar anos depois para uma entrevista que “Algumas das coisas que fizemos não são tão boas como são recordadas. The Queen is Dead não é a nossa obra-prima. Eu sei disso. Eu estava lá. Eu forneci os sanduíches”. O Marr também chegou a afirmar sobre o álbum que “Quando os Smiths se separaram, ele não era o meu disco preferido”.

Outro ponto era a relação de Morrissey e Johnny Marr que ao mesmo tempo estava gerando grandes composições, também estavam começando a se desentenderem mais e mais: dizem que eles formavam um par romântico na época.

A parceria de ambos estava fluindo de forma incrível, a maior prova disso foi o surgimento das músicas There Is A Light That Never Goes Out e I Know It’s Over, ambas compostas na própria casa de Johnny Marr. No final o disco soa sombrio com algumas músicas amarguradas e melancólicas e ao mesmo tempo Pop e bastante influente, com letras incríveis junto à guitarras abrasivas e geniais.

JOHNNY MARR & MORRISSEY NA PRODUÇÃO 

Inicialmente devemos contemplar a arte icônica da capa desse álbum, escolhida pelo vocalista Morrissey que retrata uma cena do filme The Unvanquished do ano de 1964, onde observamos o ator Alain Delon deitado como se estivesse morto.

Uma curiosidade é que o título do disco The Queen Is Dead, veio do romance Last Exit To Brooklyn do escritor Hebert Selby Jr. Nas fotos do encarte do vinil e do CD, ainda aparece a banda em frente ao clube recreativo Salford Lad’s Club localizado em Salford.

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TRACKLIST

The Queen Is Dead

O disco inicia com faixa homônima The Queen Is Dead, uma faixa com uma linha de baixo agressiva, guitarras sobrepostas, uma ótima bateria e belos vocais de Morrissey cantando uma letra que crítica a monarquia em si e a grande fascinação dele em criticar a família real, tudo isso relacionado aos anos oitenta em uma Inglaterra liberal e sob uma primeira ministra conhecida como a “Dama de Ferro”.

Versos como “The Queen is dead, boys / and it’s so lonely on a limb” ironizam a monarquia e aristocracia inglesa que, na visão de Moz, estão em constante decadência. Aqui o eu lírico critica o príncipe mimado, Charles, que não sai debaixo das asas da mãe, Elizabeth, e que assumirá o trono depois de dezoito gerações. Um detalhe importante dessa canção são os versos “…We can go for a walk where it’s quiet and dry/ And talk about precious things/ But the rain that flattens my hair/ These are the things that kill me” nesse breve momento percebemos que o eu lírico se assume como muito vaidoso, pois enquanto existem várias coisas mais importantes para serem discutidas naquele momento, amor, lei e pobreza, na Inglaterra, ele prefere se preocupar em não molhar o próprio cabelo, pois isso o mataria.

Fazendo menção à igreja, drogas e aos pubs, o eu lírico está constantemente traduzindo a apatia, alienação e miséria humana. Em tempos de “God Save The Queen”, o líder dos Smiths não hesita em “matar a rainha” e de quebra nos últimos versos, falar da solidão da juventude melancólica em uma Londres cinza oitentista com o verso que se repete por diversas vezes “Life is very long when you’re lonely”.

PS: possuo uma tatuagem com esse verso.

Frankly, Mr Shankly

Em seguida o grupo nos apresenta a divertida canção Frankly, Mr Shankly, que é a música mais engraçada do álbum. A letra ironiza e ridiculariza o dono da gravadora Rough Trade, na música chamado aqui de Mr. Shankly, porque o grupo acreditava que os álbuns estavam sendo muito mal distribuídos em toda Europa, já que esse fora atrasado durante meses o lançamento, e que eles também estavam recebendo muito pouco por isso, já que esses discos fariam o grupo se tornar famoso e marcariam a história da música mundial, por isso eles desejavam encerrar urgentemente o contrato com a gravadora.

Em uma entrevista, Travis afirmou que não havia percebido que esta música era sobre ele até ouvir os seguintes versos “Oh, I didn’t realise that you wrote poetry/ I didn’t realise you wrote such bloody awful poetry, Mr. Shankly”. A ficha do produtor só caiu, pois o mesmo costumava enviar alguns poemas para Morrissey e pedir a opinião dele, daí a menção debochada no trecho “bloody awful poetry”.

I Know It’s Over

Dando sequência temos I Know It’s Over, já falei sobre ela outra vez aqui, que é um balada melancólica e solitária, podendo ser destacada como uma das melhores músicas de toda a carreira da banda.

Aqui temos um eu lírico que evoca a figura materna em frente à escuridão perversa da vida, por sempre estar sozinho mesmo ele sendo um rapaz inteligente e divertido. Essa com toda certeza é uma das músicas mais tristes de todos os tempos – possui quase seis minutos da mais pura melancolia e sofrimento.

Podemos observar também um confronto do eu lírico com o seu próprio ego em dada a sua condição narcisística dele “…If you’re so funny/ Then why are you on your own tonight/ And if you’re so clever/ Then why are you on your own tonight?/ If you’re so very entertaining/ Then why are you on your own tonight?/ If you’re so very good-looking/ Why do you sleep alone tonight?/ I know…” e a canção se encerra com ele nos deixando uma árdua lição: que é preciso ter culhões, ser forte, para ser gentil e carinhoso.

Na minha opinião essa é uma das músicas mais tristes de toda a carreira do The Smiths e uma das minhas preferidas.

PS: Passei uma situação quase igual a dessa narrativa.

Never Had No One Ever

Logo após aparece Never Had No One Ever, uma música que se inicia de forma abrupta e que na minha opinião é subestimada pelo público do The Smiths. Aqui surge uma balada lenta, sombria e depressiva, com uma letra bastante direta que recebe mais destaque por sua melodia e as incríveis guitarras do Marr.

O eu lírico aqui se confunde com a vida do compositor Moz, que começa relatando que está caminhando pelas ruas em que nasceu e que teve um pesadelo que durou por vinte anos, sete meses e vinte sete dias, que foi exatamente o tempo transcorrido desde o nascimento do compositor, 22 de maio de 1959, até a data da composição da faixa em 18 de janeiro de 1980,“…Now I’m outside your house/ I’m alone/ And I’m outside your house/ I’d hate to intrude/ I’m alone, I’m alone/ I’m alone, I’m alone…” Notamos aqui a proposital ambiguidade quando o eu lírico diz que está sozinho na frente da casa de alguém, [seria esse um amor proibido?] como se estivesse esperando para ser convidado a entrar, que está literalmente sozinho e que odiaria ter que invadir a propriedade alheia. A música se encerra com o eu lírico declarando por diversas vezes que nunca teve ninguém.

Cemetry Gates

Em seguida surge Cemetry Gates, aqui o Morrissey tratava daquilo que definiu como “o mais absorvente passatempo”: a atração por túmulos.

Os adeptos do hábito conhecido pelo neologismo “tafofilia” alegam que os passeios buscam a paz de espírito e a beleza dos cemitérios. “Posso gastar horas e horas num deles, apenas inalando os indivíduos”, afirmou Morrissey. “Quando viveram, quando morreram, tudo é inspirador.”

O vocalista dos Smiths costumava visitar necrópoles – em especial o Southern Cemetery, em sua Manchester natal – desde o final da adolescência, na companhia ou de sua amiga Linder Ster­ling ou de Howard Devoto, membro de outras duas importantes formações do rock local, os Buzzcocks e o Magazine.

O encanto de “Cemetry Gates” começava pela leveza, incomum num disco sombrio de uma banda triste. O guitarrista Johnny Marr chegara à melodia ao experimentar uma troca de acordes. Em vez do sol para si menor de “I Wanna Hold Your Hand”, dos Beatles, de si menor para sol.

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Morrissey depresso

A “tafofilia” fornecia o cenário, mas não era o único assunto da letra que grafava a palavra inglesa cemetery de modo errado. Moz descrevia um “temido dia ensolarado”, no qual encontrava alguém na porta do cemitério para uma conversa sobre literatura e plágio entre as lápides.

Diferente das canções anteriores é uma música mais vibrante, com um belo baixo e uma guitarra mais limpa e animada, possuindo uma letra onde Morrissey exalta a poesia e homenageia o escritor Oscar Wilde, a maior influência da vida do compositor, nos versos “Keats and Yeats are on your side / While Wilde is on mine”.

Aqui o eu lírico vai até um cemitério para encontrar com os poetas Keates e Yeats acompanhado, é claro!, do próprio Wilde. Esta é uma das canções mais geniais dos Smiths, pois responde de modo elegante as críticas feitas na época do lançamento do álbum em que o Morrissey era acusado de plagiar as mais diversas obra para compor as suas músicas.

Os versos a seguir demonstram toda a ironia do genial compositor ao dizer que não se pode “pegar emprestado” e muito menos plagiar nada dos outros “…If you must write prose-poems/ The words you use should be your own/ Don’t plagiarise or take ‘on loan…'”.

Bigmouth Strikes Again

A seguir temos Bigmouth Strikes Again, que fora lançada como single um mês antes do próprio álbum podendo ser considerada como uma das melhores músicas da banda. Sua capa é uma foto do ator James Dean montado em uma moto.

Com uma bela guitarra e uma letra que começa com o eu lírico criando um jogo de palavras irônico “Sweetness, sweetness I was only joking/ When I said I’d like to/ Smash every tooth in your head…” utilizando nomes dóceis para se referir a alguém, ele termina os versos dizendo, com um tom bem agressivo, que gostaria de arrebentar cada dente da boca da pessoa.

Aqui ele se coloca até mesmo no lugar de Joana D’Arc, “…And now I know how Joan of Arc felt/ Now I know how Joan of Arc felt/ As the flames rose to her roman nose/ And her hearing aid started to melt…” por possuir uma personalidade bastante polêmica, Moz jamais deixou de falar aquilo que pensa sobre os mais diversos assuntos ou pessoas e aqui ele responde as críticas daqueles que diziam que o cantor “falava demais” por ter dito na época que lamentou que a primeira ministra britânica, Margaret Thatchertenha saído viva de um atentado a bomba que sofreu no hotel Grand Brighton [que filho da puta!].

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Capa do single Bigmouth Strikes Again

Uma curiosidade a respeito dos supostos vocais femininos creditados para Ann Coates no encarte do disco; a verdade é que essa pessoa não existia e esses vocais foram gravados pelo próprio cantor e alterados em estúdio.

PS: Gosto bastante dessa canção, pois ela parece me descrever.

The Boy With The Thorn In His Side

Segue-se então a suave The Boy With The Thorn In His Side, lançado inicialmente como um single, no mês de setembro do ano anterior, acompanhado de um videoclipe promocional, coisa essa inédita para o grupo, pois o Moz não aprovara esse tipo de divulgação na época. Na capa temos um jovem pulando que depois descobrimos ser o escritor Truman Capote ainda jovem.

A diferença entre essa versão para a versão do single fora nas guitarras do Marr que foram regravadas, remixadas, e acrescidos riffs e solos. Uma grande música Pop, podendo ser vista como uma das faixas mais interessantes de todo o álbum.

Sua letra foi direcionada a indústria musical e a mídia em geral que segundo o cantor não acreditavam no que ele falava em relação aos possíveis plágios e quiçá sua opção sexual, um exemplo de canção que se manteve firme durante décadas e décadas.

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Capa do single The Boy With The Thorn In His Side

Segundo o próprio Morrissey, essa é uma das músicas favoritas de sua carreira. Não é pra menos, afinal, a canção se tornou uma febre nos bailes dos anos oitenta e marcou toda uma geração com um clipe que exala nostalgia onde vemos um jovem Moz cantando de maneira apaixonante em um palco em frente a um público cativo.

Vicar In A Tutu

Em seguida vem Vicar In A Tutu, uma ótima canção no estilo rockabilly cheia de charme e com um ritmo delicioso, musicalmente mais animada com uma letra, descrita por Marr como malvada, fazendo uma sátira no mínimo engraçada a um vigário “…The vicar in a tutu/ He’s not strange/ He just wants to live his life this way…”.

Aqui há uma descrição pelo eu lírico bastante caricata e irônica de uma autoridade eclesial e dos costumes da igreja católica.

There Is A Light That Never Goes Out

Finalmente temos a majestosa, sem trocadilhos, There Is A Light That Never Goes Out, que sem dúvidas é o maior clássico de todos os tempos da banda.

Melodicamente incrível e com uma letra que descreve basicamente um casal dando uma volta de carro a noite dando a entender que o encontro está tão maravilhoso que nem mesmo se um ônibus de dois andares ou até mesmo um caminhão de dez toneladas colidisse com eles e ambos acabassem morrendo, isso poderia acabar com aquele momento tão maravilhoso.

Com uma composição mágica, Morrissey nos presenteia com uma descrição perfeita da loucura que é o amor e tantos outros detalhes da natureza humana. Poucas vezes na história da música podemos ouvir-ler um trecho tão impactante como este “…And if a double decker bus/ Crashes into us/ To die by your side/ Is such a heavenly way to die/ And if a ten ton truck/ Kills the both of us/ To die by your side/ Well the pleasure/ The privilege is mine…”.

Essa canção foi composta por Moz e Marr na casa do guitarrista, sendo lançada apenas em 1987 na França e posteriormente em 1992 em várias partes do mundo como um single.

PS: certa vez escrevi um poema que dialoga com essa canção e fiz uma tatuagem com o título dela.

Some Girls Are Bigger Than Others

Fechando este grande álbum temos a faixa Some Girls Are Bigger Than Others, que inicia com um fade in e fade out, lembrando algo como uma passagem em um túnel, possuindo a melhor guitarra de Marr em todo o álbum que encerra o álbum de maneira magistral com mais uma crítica irônica a algo considerando comum na sociedade: o corpo feminino.

Aqui temos uma ótima música com uma letra bem direta que disserta sobre o fato de “algumas garotas serem maiores que outras”. Aqui o eu lírico se coloca em meio a uma conversa entre homens que falam sobre algo tão banal como o corpo feminino e demonstra todo o seu desinteresse, tédio, ao tema proposto dada a repetição constante do verso “Some Girls Are Bigger Than Others”.

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Banda na época do The Queen Is Dead em frente ao Salford Lads Club 

Concluímos dessa forma que não se pode negar que esse é o grande trabalho dos Smiths. O álbum é ótimo do começo ao fim, com uma atmosfera na maioria do tempo mais triste e melancólica, nos apresentando o momento mais glorioso de toda a carreira da banda, e mais, da grande parceria Moz & Marr.

Enquanto que em There Is A Light That Never Goes Out ocorre a descrição do amor de maneira subjetiva inclinando-se para uma visão mais otimista sobre o sentimento, I Know It’s Over é um verdadeiro tapa na cara que nos conduz até a realidade dos amores românticos ou platônicos.

Em outras palavras, There Is A Light That Never Goes Out seria a música ideal para descrever o inicio de relacionamentos amorosos quando tudo parece lindo e maravilhoso, e não a toa a música foi escolhida para ser trilha sonora do clássico filme de comedia romântica 500 Days of Summer, enquanto que I Know It’s Over seria o momento encerramento de uma relação já acabada, mesmo que um dos dois ainda não saiba.

Esse álbum marcara definitivamente o amadurecimento do grupo The Smiths, o seu apogeu e obviamente o início do declínio da banda, visto que no ano seguinte em 87′ foi lançado o último álbum de estúdio deles: Strangeways, Here We Come, e que segundo o site britânico especializado em música NME é o melhor álbum musical de todos os tempos

Não posso ser leviano ao ponto de concordar com tal avaliação, visto que não posso ser injusto e macular o olimpo musical da trindade do rock: Elvis, Johnny Cash e Morrissey (solo).


Thiago Leão.

@sirthiagoleao

https://thiagoisdead.wordpress.com

Thiago Leão

Sobre Thiago Leão

Sou um escritor marginal, humorista anarquista por hobbie e professor por opção. Costumo vestir t-shirts de tons escuros, bermudas e tênis low canvas, enfim um profeta eremita pago pelo governo para transformar idéias em desejos nas pessoas.

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