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“STRANGEWAYS, AQUI VAMOS NÓS!”

By 6 meses atrás No Comments

Depois de analisar os três primeiros álbuns, MORRISSEY: O DESCOMPASSO ENCARNADO, CARNE É ASSASSINATOA RAINHA ESTÁ MORTA, do notório grupo oitentista inglês The Smiths, chegamos ao capitulo final de nossa saga, estou falando do álbum “Strageways, Here We Come”. Desta forma, peço-vos que liguem o tocador e decifrem juntos comigo este maravilhoso álbum.

STRANGEWAYS, HERE WE COME – 1987 (Rough Trade)

The SmithsLançado em novembro de 1987 pela gravadora Rough Trade, produzido pela própria banda com ajuda do engenheiro de som Stephen StreetStrangeways Here We Come é o último suspiro de estúdio do The Smiths, com um estilo bem variado e longe dos exageros melódicos, capilares, e cores neon, glam metal, que predominavam na música da época.

Neste álbum o grupo assume um direcionamento ainda mais sóbrio, homogêneo, do que o apresentado nos discos anteriores. Esse traz um som bem diferente dos seus antecessores, visto que agora são apresentados ritmos musicais mais variados e instrumentos diversos contando até com um piano gravado pelo Morrissey em uma das músicas, Death of a Disco Dancer, e também um saxofone sintetizado por Johnny Marr em Death at One’s Elbow e teclado, harmônica e auto-harpa em I Won’t Share You.

Mesmo o disco parecendo soar incrível e passar um perfeito entrosamento do grupo, vários desentendimentos em relação ao agenciamento do grupo e o rumo que cada um queria seguir a partir dali estavam afetando diretamente o relacionamento de Morrissey e Marr, que só piorava com o passar do tempo.marr e mozO Nome do álbum foi escolhido pelo próprio Morrissey baseado no famoso presídio de segurança máxima de Manchester, Strangeways Prison, e parafraseando o verso “Borstal, here we come” do romance Billy Liar do escritor Keith Waterhouse.

Quando foi lançado o álbum Morrissey explicou que o título não fora uma piada, mas uma profecia “Se eu acabasse na prisão Strangeways, não ficaria surpreso […] Na verdade, sou eu erguendo os braços para o céu e gritando agora: o que vem agora?. A Strangeways, como se sabe, é aquela construção vitoriana monstruosa que abriga oitenta e oito por cela. Não tenho planos de praticar nenhum crime, mas é tão fácil ser um criminoso hoje em dia que eu não teria que procurar muito para conseguir ser um. A vida é tão esquisita que tenho certeza de que conseguiria sem muita dificuldade.”.

imagesNeste álbum cada faixa parece introduzir o que será utilizado na composição seguinte, lembrando algo como uma narrativa cronológica que encerrará literalmente uma história, porém de nítidas especificidades e marcas sonoras.

Ainda que recheado por composições essencialmente sóbrias e encaixes instrumentais que passeavam pela música Pós-Punk e demais referências musicais da época, com o derradeiro disco o grupo parecia cada vez mais interessado em flertar com o pop, coisa essa que o Marr desejava desde o álbum de estréia e que o Morrissey se opunha veementemente desde o início do grupo.

Apesar de todos os problemas entre os membros e gravadora por incrível que pareça as gravações do disco foram de certa forma tranquilas, onde o produtor Stephen Street capitava todas as ideias que a dupla Moz & Marr tinham, além do fato de que após as gravações diárias o grupo se reunia para beber, exceto Morrissey que não gostava da idéia.

Este é o registro mais comercial de toda a carreira da banda, o álbum Strageways, here we come possui suas marcas bem estabelecidas não apenas dentro do universo do grupo inglês, mas a nível mundial.

Observando a icônica capa do álbum que traz o rosto do ator Richard Davalos em uma cena do filme East Of Eden – 1955, na imagem original Davalos está olhando para o ator James Dean, o qual é um herói para Morrissey a ponto dele ter escrito o livro James Dean Is Not Dead era pré-Smiths, ninguém imagina curiosamente que essa foi a segunda opção de Moz para a capa, pois a capa original deveria apresentar a imagem do ator Harvey Keitel do filme Who’s That Knocking at My Door – 1967porém o mesmo não permitiu o uso de sua imagem.

Já o título do disco foi tirado do nome da prisão Strangeways que fica localizada em Manchester cidade natal do cantor.

12b89b9ae55b898085280452d85f1b7f.jpgImagem original da capa.Prisão Strangeways em Manchester.

TRACKLIST

A Rush And A Push And The Land Is Ours

Inciando o álbum temos A Rush And A Push And The Land Is Ours, uma faixa bem diferente musicalmente, com uma pegada levemente Reggae, onde as raízes irlandesas de Morrissey são botadas para fora em um grito de “raiva” em “…A Ruuuuuuusssssh…”.

Podemos observar os vocais do Morrissey carregados de reverb que dão a sensação do eu lírico estar passando dentro de um túnel ou até mesmo preso em um poço, enquanto conversa com o pai sobre sua solidão e desilusão amorosa. Aqui os teclados e sintetizadores do Marr são magníficos.

I Started Something I Couldn’t Finish

Em seguida temos I Started Something I Couldn’t Finishlançada como single no mês de novembro do mesmo ano, que na capa que traz uma foto da atriz e comediante inglesa Avril Angers do filme The Family Way – 1966.

Com uma guitarra bem ao estilo Glam, uma bateria intensa e um saxofone sintetizado essa faixa se torna um grande exemplo da variedade musical dos Smiths à época onde Morrissey canta uma letra que sugere a falta de foco e posterior dissolução do grupo.

fdfgddCapa do single I Started Something I Couldn’t Finish

Death Of A Disco Dancer

Segue-se Death Of A Disco Dancer com uma sonoridade totalmente melancólica possuindo o famoso piano do Morrissey. Esta é uma música bastante interessante que possui um início bem suave e ao decorrer dos fatos da narrativa, em que um dançarino de discoteca é assassinado, ela vai crescendo melodiosamente até culminar em um show de guitarras, baterias e instrumentos totalmente caóticos.

Esta canção possui uma interpretação dúbia, visto que o cantor Morrissey já disse em uma entrevista odiar música eletrônica “É um refúgio para a deficiência mental. É feita por pessoas tediosas para pessoas tediosas.” enquanto que a outra interpretação possível seja uma menção do compositor a onda de assassinatos a homossexuais nas casas noturnas inglesas nos anos oitenta.

Girlfriend In A Coma

Em seguida surge Girlfriend In A Coma, que foi lançada inicialmente como single meses antes e que conta novamente na capa com a escritora Shelagh Delaney, que aparece também na capa da coletânea lançada meses antes Louder Than Bombs.

Esta é uma música incrível que apresenta um nítido contraste entre uma letra triste e uma melodia alegre e doce, sendo considerada uma das canções mais irônicas do grupo.

Aqui temos um eu lírico que descreve seus sentimentos conflitantes em relação ao fato de sua namorada estar em coma, do desejo em matá-la por diversas vezes com o sentimento contrastante de que nada de ruim devesse acontecer a ela.

Algo interessante de ser observado nesta canção é que o eu lírico em nenhum momento deseja a morte de sua namorada enquanto ela está em estado vegetativo, talvez por desejar vê-la em cima de uma cama em estado vegetativo para saborear sua vingança ou até eternizar o seu relacionamento mesmo contra a vontade dela.

rtyrtyryry.jpgCapa do single Girlfriend In A Coma

https://www.youtube.com/watch?v=3GhoWZ5qTwI

Stop Me If You Think You’ve Heard This One Before

Em Stop Me If You Think You’ve Heard This One Before, uma das melhores faixas do álbum, lançada como single que traz na capa o ator e músico Murray Head em uma cena do filme The Family Way – 1966.

Esta é uma canção amorosa com belas guitarras de Johnny Marr, além de ser bem acessível e “bonitinha” melodicamente. Uma curiosidade é que essa música não foi lançada como single na Inglaterra por conter o verso “plan a mass murder”, dessa forma por causa do recente massacre de Hungerford à época, a canção não saiu como single na terra natal do grupo.

Outro ponto interessante é o videoclipe dessa faixa produzido por Tim Broad, mostrando locais famosos como o Salford Lads Club.

hjhjhCapa do single Stop Me If You Think You’ve Heard This One Beforecvbcbvcb

Last Night I Dreamt That Somebody Loved Me

Em seguida temos Last Night I Dreamt That Somebody Loved Me que foi lançada como single e que contem na capa um dos heróis de Morrissey, o cantor Billy Fury.

Podendo ser considerada a melhor parte do disco, a princípio a canção soa sombria e se destaca por possuir pianos e um arranjo de cordas ambos de Johnny Marr que se inicia com um piano de Marr tocando como plano de fundo dos ruídos de uma multidão brigando que representa a chamada guerra dos mineiros que se deu entre 1984-85.

Aqui o eu lírico mais uma vez se lamenta por não ter encontrado ainda o amor de sua vida relatando que na noite anterior alguém tinha o amado, porém que tudo não passara de um falso alarme e que essa é uma história antiga, mas que continua, continua…

yttytCapa do single Last Night I Dreamt That Somebody Loved Me

Unhappy Birthday

Continuando então temos Unhappy Birthdayuma faixa bem-humorada e que possui um ritmo alegro e uma auto-harpa tocada pelo Marr, no final é uma canção tranquila e bem harmonizada deixando uma ótima impressão para quem a ouve.

Aqui o eu lírico de forma bem sarcástica deseja um “infeliz aniversario” para aquele que mentiu e deixou-o para trás.

Paint A Vulgar Picture

Em seguida temos Paint A Vulgar Picture, possuindo a letra mais extensa de todo o álbum a qual narra sobre os sentimentos do Morrissey em relação a indústria musical, que ele critica por relançar o mesmo material como álbum duplo, faixas extras, um botom brega e tudo embrulhado como novo com intensões meramente pecuniárias.

E por mais irônico que pareça, o The Smiths fez exatamente isso, lançando cinco discos de compilações e sucessos, e dois boxs set. Por fim é uma ótima música encaminhando o álbum de forma agradável.

Death At One’s Elbow

Finalmente temos Death At One’s Elbow, com uma temática lírica mais sombria de despedida, essa faixa mostra novamente a variação musical dos Smiths nesse álbum em que possui arranjos de cordas sintetizados e saxofone.

É mais uma canção com uma letra contrastante entre uma letra melancólica e uma uma sonoridade mais alegre, lembra uma canção country com elementos de rockabilly.

O eu lírico aqui pede a sua companheira (o) Glenn que ela (e) não retorne para casa, pois lá há alguém que a (o) ama e por isso ele simplesmente diz adeus.

I Won’t Share You

Encerrando o álbum temos I Won’t Share You com uma melodia simples guiada pela auto-harpa do Marr e uma letra totalmente egoísta, egocêntrica.

O significado desta música até hoje é discutido, muitos dizem que ela foi composta para o guitarrista Johnny Marr, pois o Moz sentia ciúmes quando ele tocava com outros músicos, ou que o Morrissey estava apaixonado pelo guitarrista [muitos afirmam que eles tinham um relacionamento amoroso à época],  mas não se tem nada certo sobre essa canção, o que se sabe é que ela provocou fortes emoções no baterista Mike Joyce e a mesma o fez chorar.

Aqui o eu lírico simplesmente afirma que não compartilhará a sua amada com ninguém.ED4lom6Sem dúvidas é o registro mais bem produzido do grupo e musicalmente mais diversificado também, trazendo um som diferente do que a banda já havia apresentado até então, sendo ao final de tudo um grande disco de despedida, mesmo não sendo propositalmente um álbum de adeus.

Sinceramente senti bastante falta do contrabaixo do Andy Rourke, assim como também por diversas vezes a bateria do Mike Joyce. Ao ouvir o álbum e os demais parece até que eles gravaram as faixas simplesmente acompanhando a guitarra do Marr.

Deste álbum destaco as canções I Started Something I Couldn’t Finish, Girlfriend in a Coma, Last Night I Dreamt That Somebody Loved Me e a Death at One’s Elbow.

Na minha próxima análise apresentarei as canções extras do The Smiths que não foram lançadas nos álbuns de estúdio, porém apenas nas compilações, Hatful of Hollow (1984), The World Won’t Listen (1987)Louder Than Bombs (1987) Rank (1988) ou singlese posteriormente todos os álbuns da carreira solo do Morrissey.


Thiago Leão.

@sirthiagoleao

https://thiagoisdead.wordpress.com

Thiago Leão

Sobre Thiago Leão

Sou um escritor marginal, humorista anarquista por hobbie e professor por opção. Costumo vestir t-shirts de tons escuros, bermudas e tênis low canvas, enfim um profeta eremita pago pelo governo para transformar idéias em desejos nas pessoas.

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